LUAS CRUAS DE CARA NOVA!

Pessoal, estou mudando de lugar. Por favor, acessem a nova página do meu blog, não me abandonem!

http://luascruas.blogspot.com

 

Eis minha poesia preferida, de Cauê Lundi.

Explosão Demográfica

 

 Pétalas de vidro despedaçaram o fio da navalha

Aguda e incisiva

Que em outros corpos relutaria na teimosia dos

Quadrúpedes sem fala

Rompendo o menisco nupcial das vidas

 

 

Sensorial e nefasta

Que em outros corpos calaria na voz sombria

Das mortes,

Sentindo o corte profundo dos seus átrios

 

Imunda e solene

Que em outros corpos quebraria os ossos

Do ofício,

Colocando a matéria sobre o alaúde de

Ouro e lata,

Socando a terra com suas linhas

 

 

Menina e órfã

Tosca mina de confetes de carvão,

Espetada sob a luz difusa das mãos

Enraizadas,

Colocando sobre os pés e pulmões de fuligem

Do hospital- cemitério

 

 

Louca e virgem,

Que em outros corpos seria a flor das

Casas de Madame Mimi

Roída e consumida com a fumaça branda

Das altas rodas

Quebrada nos encantos das alianças

Partidas, da noite extinguida

 

 

Dinamite e grana,

Que em outros corpos deslizaria terra e

Inundaria vales

Com a mesma graça das bombas nos tetos

De Hiroshima,

Nos bares do ópio, na descarga dos cartéis

Amazônicos

 

 

Força e trincheira,

Que em outros corpos sufocaria as chibatas

Do anjo imperialista,

Defensor das terras alheias e canhão contra  a

“peste comuna

Sofrendo nos calcanhares essa sapatilha

De madeira trepadeira

 

 

Prosa e lágrimas,

Que em outros corpos entoaria o canto da

Poesia de Pablo Neruda,

Com suas garras de cobre e sal,

Cobrindo o mar de sonhos,

Para que a sombra dos olhos não apagassem

As pisadas de nossos corpos

Nem a lua convidasse as estrelas a se esconderem

No seu véu de majestade

 

 

Nua e pura,

Que em outros corpos fosse apenas corpos

Sem marcas

Longe da fúria das madames ocidentais

Vestida com a pele e a alma desses corpos,

No frenesi de suas embarcações santas

Que em outros corpos seria o odor universal

Dos corpos imaculados

Na cidade do homem sem corpos.

 

 

 

Viva o moralismo!!!

            Mulheres! Minhas queridas mulheres, reajam!!! Contra esse machismo que parece não ter fim, contra a coisificação do corpo feminino, da sexualidade feminina, contra a moralidade podre e hipócrita que faz um bando de machistas recalcados atacar uma estudante só porque ela usou uma minissaia. E daí?!!! Talvez o que mais me espanta não seja o fato em si, mas sim os comentários que meus ouvidos atônitos captaram por aí: “Ela deve ter aprontado alguma!” “Boa coisa não deve ser, ela provocou!” O fato de quase 700 pessoas ficarem absurdamente agitadas, animalizadas, hostis e agressivas diante de um par de pernas demonstra, no meu ponto de vista, algo que eu já havia observado, mas que simplesmente escancarou-se diante dessa situação: O MORALISMO ESTÁ A TODO VAPOR.

            E o moralismo é contra nós, mulheres, é claro.  Se você mostrar suas pernas, é uma puta. E, por ser uma puta, merece ser linchada, moral e fisicamente. Mas, para os machistas “espertinhos”, as mulheres que dançam AXÉ ou que desfilam no carnaval não são putas, porque aquilo é um trabalho. Se você assumir para si mesma a importância do seu orgasmo e exigi-lo de seu parceiro, é uma depravada. Se você é solteira, mas “fica” com vários homens, é uma vagabunda. Se você fica estressada com alguma coisa, é porque está com TPM (como se o ciclo menstrual fosse algo sujo, pecaminoso, medonho, e como se ficar estressado, no caso da mulher, fosse apenas uma condição biológica sem importância, e não um sentimento humano como qualquer outro). Se você está perturbada com alguma coisa, e seu humor não está tão bom, é porque precisa de um homem, enquanto que o homem mal humorado não precisa de uma mulher, o que significa, claramente, que o homem pode salvar a mulher de determinado estado de espírito, mas o contrário não se aplica a ele.

            Me parece um tanto quanto grave que algumas mulheres sejam coniventes com os homens que perturbaram a estudante, assinando embaixo dessa patifaria e, assim, perpetuando esses valores que só geram violência. Valores que só beneficiam os homens, em sua noção um tanto quanto distorcida e perigosa dos papéis sociais exercidos pelos gêneros, e por isso se sentem autorizados a exercer a violência doméstica, a pagar um salário menor para as mulheres que exercem a mesma função, a praticar a violência psicológica contra suas companheiras, começando pelas clássicas frases: “Você não vai usar esse decote!”, “você não vai sair à noite para farrear com suas amigas”, e culminando num relacionamento claramente desigual e cheio de sofrimentos, em que ambos acabam aplaudindo uma demonstração pública de hostilidade a uma mulher que simplesmente mostrou as pernas, porque, para ambos, trata-se de uma puta.

            Mulheres, acordem! Antes que esse moralismo volte-se contra vocês mesmas, contra suas amigas, filhas. E vocês, machistas, cresçam! De uma vez por todas!!!

             

           

Manto

Reluz por um segundo

E finca na eternidade

Ser eterno como se

O manto pudesse

Cobrir a fome

 

Ao longo do percurso

Sinto a voz da agonia

O que me percorre

E me minimiza

Senão o medo

A sede

Senão a fonte

O grito

E de esperança eu morreria

Se a flor da ingenuidade sangrasse

Se a marca do teu gemido nu

Germinasse em mim

A orgia do espírito

Meu e teu

Teu

Todo

Tudo

Grande satisfação

 

            Enfrento, às segundas, um trânsito de enlouquecer às seis da tarde para dar apenas duas aulinhas numa Escola no Imirim. Pelo sacrifício que envolve deslocamento, gasto em condução e cansaço, ganho em torno de R$23,00, que, descontada a condução, transforma-se tristemente em R$ 18,40.

            Mas faço com gosto. Pois as duas aulas são para Jovens e Adultos. A maioria é composta por homens e mulheres de 30 anos pra cima, pessoas ávidas pelo conhecimento, claro que com suas poucas exceções. Às vezes tenho a impressão de que nem piscam. Absorvem todas as sílabas, tudo o que é dito e escrito na lousa, com uma dedicação tão grande que coloca 90% dos alunos do Ensino Médio Regular no chinelo, em termos de interesse pelo conhecimento.

            Estou com eles desde o início do ano. Desenvolvemos, mesmo com encontros que ocorrem somente uma vez por semana, uma afinidade e uma cumplicidade que fazem as aulas renderem muito. Por tudo isso, preparo cada uma com carinho. À parte de teorias sociológicas e marcos históricos que eles talvez não precisem dominar completamente, promovo discussões, debates, estimulo a escrita. Falo de política. Tento suprir, na medida do possível, uma lacuna imensa, pois a impressão que tenho é a de que essas pessoas tiveram que trabalhar, muitas desde crianças, sustentar uma família, sobreviver, sem que a voz e a devida atenção fossem dadas ao seu desenvolvimento humano. Sem que nada além da obrigação de trabalhar fosse dada, na verdade.  

            No início do semestre, perdi as duas salas, para um professor que tirou e ainda tira muitas licenças. Fiquei sinceramente espantada com a reação dos alunos, que fizeram uma verdadeira balbúrdia pra que eu voltasse. Me pediram para dar um jeito, para tentar trocar as aulas, e isso felizmente deu certo. E então retomo o trabalho do semestre passado, percebendo o quanto eles se sentem felizes e realizados ao debaterem, ao compreenderem com maior profundidade tudo aquilo que os assola, que os oprime. Em cada redação, circulo cuidadosamente os erros gramaticais e faço comentários. Em cada “matéria dada”, procuro ouvi-los e conduzi-los a uma percepção mais aguda da realidade, e não sei, verdadeiramente, o que cada um irá reter, o que cada um fará com o que tentei ensinar, não sei se o Ensino Médio para Jovens e Adultos os prepara melhor para o mercado de trabalho, ou para a vida. Creio que não. Pois em termos de conhecimentos científicos, a defasagem é muito grande, o que dificulta a apreensão dos códigos e do conteúdo exigido pelo “mundo”.

            Mas isso não me faz doar menos, dialogar menos, caprichar menos. Pois é possível que o aprendizado seja exatamente essa relação honesta que se construiu espontaneamente entre a minha constante preocupação em realizar um trabalho bem feito e a dedicação extrema dos alunos. O que me faz afirmar, sem demagogia, que eu daria essas aulas de graça, se fosse preciso. Somente pela grande satisfação que percebo quando entro na sala de aula e eles me acolhem calorosamente. Quando faço uma brincadeira qualquer no meio da aula e eles se descontraem, bem humorados, depois de um longo dia de trabalho. Quando um deles finalmente aprende a acentuar as palavras, ou quando eles percebem o quanto já sabem, empiricamente, sobre determinado assunto. O quanto é extremamente necessário construir relações saudáveis entre seres humanos que ainda possuem esperança.  

Lampejos

 

            Quando eu era mais jovem, lá nos meus vinte anos, imaginava que, quando estivesse com trinta, já teria feito o Doutorado na Sorbonne, e que me especializaria em Sexualidade, ou Antropologia Sexual. Este é um assunto que sempre me fascinou, e eu tinha a inabalável convicção de que me dedicaria a isso pelo resto da minha vida. Eu também achava que, nesta idade, teria uma boa situação financeira, teria uma casa só minha, seria uma escritora conhecida, e não pensava em filhos.

            Experimento me ver hoje, quase aos trinta, com aqueles olhos dos vinte. Hoje, dou aulas em 3 escolas Estaduais, corro de um lado para outro todos os dias e encaro uma profissão que tem muito mais dissabores do que compensações. Não tenho Doutorado, mas estou fazendo mestrado. E não é na área de Sexualidade, e sim de Geografia, Planejamento Urbano, Cidade. Não sou uma escritora conhecida, não tenho, ainda, uma casa só minha, e atualmente penso em ter filhos.

            Não sinto falta de alguns planos que não se realizaram, creio que eles se modificaram, se adaptaram à minha realidade. Alguns eram inviáveis. Outros, por razões que nem sempre compreendo, ficam adormecidos dentro de mim, esperando que eu os desperte.

            O mais importante dessa reflexão talvez seja o fato de que comecei a conhecer uma coisa chamada maturidade, que me fez entender que não há uma única maneira de ser e de sentir as coisas. Antes, eu sentia tudo em sua potência máxima. Antes, minha alma estava mergulhada num romantismo que me fazia perder os sentidos, às vezes, diante da vida, do mundo. Um romantismo que me fazia sangrar.

             Minhas palavras sangravam. No meu universo, não havia meio termo. Não havia um caminho do meio onde eu pudesse fazer com que minhas dúvidas e angústias repousassem. Não havia nada além de uma nostalgia imensa por um passado ancestral e uma urgência em deglutir o presente, de forma embriagada, intensa e visceral. E tudo isso era, creio, mascarado por uma meiguice que hoje me parece realmente apenas uma máscara.

            Eu não sou mais assim. Sinto de outro modo, talvez de maneira mais comedida. Só que, de vez em quando, principalmente quando estou distraída, sinto ainda alguns lampejos daquela intensidade, daquela urgência, daquela sede imensa de viver. Sinto um desejo de realização que me toma por inteiro e, apenas por alguns segundos, me transforma naquela jovem de vinte anos, pronta para lutar, para criar e transformar. Eu nunca hesitava em minhas lutas. Elas eram dantescas. Elas eram, na verdade, maiores do que eu. E por isso, principalmente, eu sofria.

            Deixei de acreditar em muita coisa, principalmente no romantismo. Meus pés estão fincados no chão e, como acontece com todo mundo, quando temos que pagar nossas contas, os sonhos se dissipam.

            Por outro lado, me sinto mais tranqüila, sorvendo com honestidade todas essas transformações, sem medo de assumir que amadureci em muitos aspectos.    

Talvez o maior benefício que a maturidade nos oferece seja a possibilidade de escolhermos as nossas lutas. E, com isso, a liberdade absolutamente humana de hesitar.  

O mundo nos adoece

 

            Debilitada por causa de uma gripe, ontem fui atendida por uma médica que me dá atestado de apenas um dia e me diz que, se for gripe suína, eu posso dar aulas, pois na sua opinião é preciso que as pessoas tenham contato com o vírus para criar imunidade, e se alguém for contaminado e morrer, morreu, fazer o quê? Aliás, disse ela, o número de mortes é pequeno, comparado às grandes epidemias de gripe que já assolaram a humanidade. Pois esta profissional não se importa nem um pouco com o fato de que uma professora gripada pode disseminar o pânico entre os alunos, uma vez que nem todo mundo compartilha suas exóticas opiniões.

            Por isso me recuso a dar aulas de manhã, e tenho que correr atrás de um atestado, no primeiro pronto socorro a recepcionista me diz que o atendimento está demorando duas horas, não parece irônico que num lugar chamado PRONTO SOCORRO as pessoas que estão debilitadas tenham que esperar tanto tempo? Ela me diz que um hospital próximo atende meu plano, e, quando chego lá, descubro que não atende, nem sequer uma informação correta ela consegue dar, foda-se se você está DOENTE, problema é seu se tem que ficar zanzando de um hospital para outro. Pois vou num terceiro que também não atende meu plano, e desisto do atestado, tenho uma crise de CHORO e vou andando para casa, devagar, aí sou assaltada por uma menina que deve ter uns 17 anos, claramente viciada, que me ameaça dizendo que tem uma faca e me obriga a dar dinheiro, “não quero machucar ninguém”, eu tinha certeza de que ela não tinha uma faca, e creio que consegui manter o controle, dei 16 reais a ela e depois tive outra crise de choro e tremi por causa do susto.

            E é com tosse, a cabeça zunindo e dores no corpo que chego em casa pensando o quanto esse mundo nos adoece. Nunca a indiferença do “sistema” me parece tão cruel, todos esses pequenos eventos vão tornando o dia-a-dia insuportável, a situação vexatória do transporte público, do trânsito, da pobreza e miséria em toda esquina, obrigando seres humanos a tornarem-se pedintes, ou assaltantes, implorando a outros seres humanos que lhe deem qualquer coisa, e muitas vezes esses outros seres humanos reagem com indiferença, e em TODAS essas vezes é necessário ignorar o desespero estampado no rosto de quem pede, pra que seja possível prosseguir, é isso???

            E me parece que a sociedade de um modo geral insiste em acreditar nesse sistema neo-liberal em que a fórmula “cada um por si” é a principal regra, enquanto cada um em sua própria vida padece de falta de solidariedade, de perspectiva, onde a única coisa que nos une são os problemas, como não adoecer?

            A minha convicção agora é de que, se um ser humano cair estatelado no chão, muitos passarão reto, pois estamos nos tornando cada vez mais incapazes de estender a mão. Termino com uma frase de Will Eisner, que na verdade resume tudo o que tentei dizer:

            “Quanto mais eu ando nas ruas, mais noto como são imperceptíveis as pessoas que passam por mim. Eu cresci aceitando isso como um fenômeno normal da vida nas grandes cidades.”   

Malhando o Judas

 

            Não sei se este blog está se transformando num relato de sala de aula, pois essa não é a intenção. Pra quem não sabe, o nome inicial deste espaço era “O que der na telha”, e o espírito continua sendo: uma ideia bateu na minha cachola, eu escrevo.

            Por outro lado, falar sobre aquilo que vivencio em sala de aula me ajuda a manter a sanidade mental. Acredito que há certa redenção e alívio ao compartilharmos as coisas. Por isso, queridos leitores, lá vai mais um textinho metendo o pau na Educação:

            Assumi umas aulas de Geografia, como eventual, pra duas turmas que não têm aula desde fevereiro (sim, pasmem!). Pra quem está pensando porque uma socióloga está metendo o bedelho onde não foi chamada, esclareço: estou fazendo Mestrado em Geografia, portanto, aceitei o risco, respaldada em disciplinas que me ofereceram um panorama geral do que é ensinar essa matéria.

            Pois hoje tive que cobrir uma aula da professora titular, que graças a milagres que acontecem de vez em quando, está se aposentando. Ao longo do texto, explicarei porque estou malhando o Judas.

            Visualizem uma sala de aula com cerca de 30 alunos, todos nos seus 14, 15 anos. Me olham sem qualquer interesse e sem esperança. Infelizmente, o olhar de alguns jovens não tem mais esperança. Explico que vou substituir a professora e pergunto onde pararam com a matéria. Eles tinham respondido algumas perguntas de um texto curto, sobre o processo de industrialização brasileiro, Era Vargas, CSN, etc. Para montar um diagnóstico, pergunto o que eles entenderam do texto até então. Nada. Não entenderam nada. Então vamos lá: explico linha por linha, palavra por palavra, tentando amarrar a interpretação com conteúdos de história, e de sociologia (matéria que leciono pra eles). A coisa não anda. Sonolentos, desinteressados, me passaram a trágica impressão de que não fazia diferença se fosse eu, o papa, o Lula ou o Pinóquio falando abobrinhas nos ouvidos deles.

            Aí dou uma sacudida, provoco: por que copiar se não entendem? Qual a importância da Geografia, da industrialização, o que é INDÚSTRIA, meu deus do céu?!!! Vou, aos poucos, decodificando as coisas, tentando fazer aquela ladainha ter algum sentido. Há uma pequena reação. Desafiados, me disseram que a professora quase não explica, e que os faz copiarem as respostas no caderno. Respostas longuíssimas. Cópias, cópias, cópias. Somente cópias.

            Será que alguém pode me explicar como é que pode existir um profissional tão irresponsável? Será que esse mesmo profissional tem a exata noção de que está assassinando intelectualmente uma geração inteira? Que está fazendo os alunos de bobos? Que está arrancando deles o desejo de saber? Que está banalizando o conhecimento, tornando-o inacessível, desnecessário? Como é que pode existir uma pessoa tão preguiçosa ao ponto de entrar na sala de aula todo santo dia para passar um volume massacrante de textos na lousa? E o pior, como é que essa pessoa pode sair impune?

            Alguma coisa morre por dentro quando sentimos que algo que nos é caro foi pisoteado pelo outro, e que, neste caso, o outro curtirá sua aposentadoria como se nada tivesse acontecido e estamos conversados. Dentro do universo da educação, creio que não exista nada pior do que um professor fazer com que o brilho de curiosidade nos olhos dos alunos desapareça. E o que me consola minimamente é a minha convicção de que estou fazendo o possível para reacendê-lo, sem saber se terei algum sucesso.  

Até quando?!!!

 

            A aula tinha acabado. Classe barulhenta. Quando eu estava repondo minhas energias, me preparando para ir embora, uma aluna do terceiro ano entrou na sala, muito séria, dizendo que queria falar comigo. E o que ela disse foi mais ou menos isso:

            - Sou nordestina. Os alunos da minha sala ficam “zuando” comigo, até já me desenharam na lousa. Acho que eles têm muito preconceito contra nordestinos e bolivianos. E os professores ajudam [contribuem] pra isso.

            Eu, PROFESSORA, logicamente perguntei:

            - Contribuem como?

            - Outro dia a professora de Geografia falou que nós somos muito pobres, e hoje a senhora falou que as crianças nordestinas não conseguem aprender porque são desnutridas.

            (O que eu disse foi: “em algumas regiões, principalmente onde existe a seca, algumas crianças que não têm o que comer, e que, por isso, são desnutridas, apresentam dificuldades de aprendizado, porque existe uma carência muito grande de proteínas).

            Concordei com ela, e creio que sua observação foi muito importante pra mim. Porque realmente, por algum motivo que ainda estou investigando, a sociedade, de uma maneira geral, conserva a imagem de que só existe pobreza no nordeste, e que não existe nada de bom. E ela, com toda razão, se ofendeu, afinal eu estava falando de seu lugar de origem, de sua “casa”. Então eu disse a ela que realmente a gente costuma fazer isso, mas que as coisas boas existem, sim, como beleza natural, a cultura popular, etc. Prometi a ela que pensaria sobre isso, e que falaria com os alunos para pararem de disseminar o preconceito. Na verdade, eu já tinha tido uma “conversinha bem séria” com eles sobre isso, mas parece que é algo que temos que dizer todos os dias.

            Isso me fez pensar em muitas coisas. A imagem negativa que nós, sociedade, construímos em relação ao nordeste é a mesma que construímos em relação às periferias das grandes cidades e à África. Na periferia só existe violência e pobreza, na África só existe miséria e AIDS. E assim, aos poucos, vamos estigmatizando pessoas, comunidades inteiras, impedindo que as pessoas enxerguem suas qualidades, valorizem suas riquezas. Vamos exterminando a possibilidade de sermos solidários, engessados pelo senso comum que não relativiza nada e torna tudo simplista e absoluto.

            Devemos ter cuidado com o que falamos e analisar criticamente o que pensamos. Devemos rever esses conceitos que constroem abismos entre classes sociais, impossibilitando o diálogo e a troca. Pois viver em sociedade me parece ser uma eterna e titânica batalha para nos afirmarmos ao estigmatizarmos o outro. E, dessa forma, os problemas sociais que atingem a TODOS vão se aprofundando, sem que haja um esforço coletivo para encontrarmos soluções.

            O rico contra o pobre, o pobre contra o rico, os professores contra o Estado, contra os alunos, os paulistanos contra os nordestinos, os brasileiros contra os bolivianos, os brancos contra os negros, os homens contra as mulheres, o Estado contra o povo, e assim cada um vai se fechando em seu próprio universo, tentando, o tempo todo, reafirmar sua verdade, achando que, para isso, é necessário anular a verdade do outro.

Desabrochar

 

Desabrochar é indecente. Acreditem. A indecência de uma rosa desabrochada é ofuscada pela sua beleza. Por isso, ninguém percebe. Mas por que é indecente? Porque quando algo ou alguém desabrocha, revela a sua verdade de maneira puramente espontânea.

            Creio que somente os bebês possuem uma pureza espontânea em seu contato com o mundo. O que mais me impressiona neles é o olhar. Ávido ao ponto de parecer voraz. Tudo é absorvido, e as coisas são retidas pelos seus olhos até perderem o interesse, que pode ser retomado a qualquer momento, com a mesma intensidade.

            Faz parte do processo de socializar-se que nos tornemos mais contidos e enquadrados. Aprendemos a ser educados, polidos, adaptáveis. Um ser para o trabalho, um ser para o amor, um ser para os amigos no bar. Não sei até que ponto isso é um problema. Creio que existe um problema quando passamos a viver e nos moldar inteiramente para o outro. Quando outro ser tiraniza nossos passos, nossos anseios e impulsos. Aí nos retraímos, perdemos a beleza, nossas pétalas murcham.     

            E somente a auto descoberta pode ocasionar o desabrochar, quando um ser novo nasce de dentro do “velho”, do moldado. Então é a vez da nudez, confusa, distorcida, assimétrica, hesitante. Sem embalagem, sem barganhas. Quem somos de fato. E esse quem somos de fato precisa aprender a movimentar-se neste mundo, mesmo que deva, de início, tatear. Avançar e recuar, tentar e errar e tentar e errar. E acertar. Talvez neste processo exista, efetivamente, a possibilidade dos adultos voltarem a brincar. Brincamos ao vestirmos uma roupa inteiramente diferente, ao contarmos uma piada para algum ser carrancudo, ao beijarmos displicentemente o rosto do nosso medo quando ele estiver distraído. Nisto existe uma reinvenção que não possui regras, objetivos e formas. Pois a cada passo, a cada “brincadeira”, vamos solidificando em nossa alma o que realmente vale a pena, até reaprendermos a sorrir como uma criança.

            Voltando a elas, meu ser se derrete inteiro ao ver o sorriso do meu sobrinho Lucca, que está com 9 meses. Pois não há nada ruim e triste que não possa ser dissolvido com o som de suas gargalhadas.

 

  

“I’m your man!”

 

            Todas as vezes em que estou de férias, ocorre um fenômeno esquisito: troco a noite pelo dia. Vou dormir às 6 da manhã para acordar às 13:00h. Neste meio de ano, minhas férias foram prolongadas (por causa da gripe suína), então tive duas semanas de agosto para dormir um pouco antes do sol nascer. Quando não engato na escrita da minha dissertação, o que faço geralmente de dia, preencho estas noites assistindo filmes, ou lendo. Eis que nesta noite fui presenteada com uma grande surpresa: um filme em homenagem ao cantor canadense Leonard Cohen, chamado “I’m your man”, que também é título de uma de suas músicas.

            Fiquei fascinada por ele há uns meses atrás, quando o “descobri” por meio uma banda francesa que gosto muito, Noir Désir. Eles cantam juntos uma música muito bonita chamada The Partisan. Mas hoje, ao assistir a este filme, percebi que já o conhecia, que ele estava arquivado em minha “memória musical”, principalmente pelo fato dele ter se tornado monge na década de 90, e de sua música, Aleluia, ter ficado muito famosa.

            Sua voz parece um trovão, num misto de sensualidade e força poética. A princípio, não é preciso saber a tradução das músicas para gostar, basta ouvir sua linda e poderosa voz. Mas, ao acompanhar a legenda durante o filme, fiquei encantada com a beleza e a profundidade das letras, e de ter descoberto, também, que durante um tempo ele foi poeta e escritor. Aliás, tem um livro dele cujo título em inglês é “Beautiful Loosers”. Não sei se foi traduzido para o português, mas não tenho dúvidas de que vou atrás. Suas canções têm a capacidade de inundar um ambiente de luz, como poucos cantores conseguem fazer. No meu caso, existem músicas que me deixam alegremente “drogada”, ou introspectiva e melancólica, mas, quando o ouço, sinto que, se há algum vestígio de solidão dentro de mim, são varridos pelos seus trovões poéticos.  

            Recomendo. Muitíssimo. O filme exibe depoimentos seus sobre fases de sua vida, intercalados a um tributo prestado por alguns cantores (confesso que muitos eu não conheço), mas, entre eles, está Anthony, vocalista de uma banda que também adoro chamada Anthony and the Johnsons, e o U2, e ambas as participações são primorosas.

            Amanhã tudo começa novamente. Acabaram as férias, e não há como não nos preocuparmos com o que nos rodeia, como esta gripe, o senado e suas falcatruas, o preço das coisas e a insignificância da nossa cidadania. Mas depois deste filme, me sinto renovada, revitalizada por pura poesia, e por isso pronta para mais uma batalha.

 

* Pra quem tem TV a cabo, este filme está em cartaz no Telecine Cult. É só ficar de olho!!!

9:15h

No coração de São Paulo vejo

os desgraçados que tudo têm

Mas nada convém

E na janela me desespero

me comparo, me amparo

Cada salto que dou, percebo que a vida

poderia ter acabado

num desespero qualquer

Mas me deparo, me comparo e, por fim,

Me amparo e vou dormir

para que tudo isso acabe quando acordar

Porque o sono e o sonho

nada mais são que o começo misturado com o fim

poesia escrita por Uashington Gabriel, em 18/12/2009

Sentinela

 

Sou diabo desajeitado fugindo da cruz dos tropeços

Em minha fuga, quase nada fica de tudo o que queria preservar

Fica o eu que, no fundo, eu nem queria ser mais

Não sou quem rima

Não tem lapela na minha poesia

Nem o viço de uma melancolia ilesa

Mastiguei a fonte , trucidei os sonhos

Para ter sonhos mais altos

Sonhos celestes enquanto na terra a noite não me devora

Sentinela.

Uma coisa triste

 

            Dentre todas as coisas tristes e deprimentes que envolvem a relação professor-aluno, talvez a pior de todas seja o fato de que os alunos não aprendem. Meus relatos têm como fundamento fragmentos de percepções deste universo, são como uma lupa colocada em cima de um fato, portanto, nada de generalizações.

            O fato ocorreu na sala dos professores. Um dos meus colegas de profissão, reclamão de tudo, resolveu corrigir os trabalhos dos alunos, tirando de dentro dos diários um calhamaço. Como deveria ter reunião pedagógica, mas não teve (por quê? Porque não teve), resolvi ler o jornal. E, por acaso, olhei para o professor, e meus olhos ficaram imensos quando vi o que vi: ELE NÃO ESTAVA CORRIGINDO OS TRABALHOS! Sua correção era dar uma olhadinha rápida e atribuir uma nota qualquer (com que critérios, meu Deus?!). Discretamente, passei a observar o fenômeno com mais atenção. Pois a certeza foi plantada num lugar dentro de mim onde deveria nascer indignação, mas nasceu tristeza. Tristeza por causa do desleixo, do descaso, da indiferença, da preguiça. Todos aqueles alunos fizeram um esforço e merecem saber se o trabalho está certo. Merecem que os erros gramaticais sejam corrigidos, e que aprendam a fazer uma pesquisa.

            Geralmente, não peço trabalhos, pois tenho receio de que esta forma de avaliação seja apenas um “tapa buraco”, e não uma avaliação efetiva, justamente porque os alunos copiam e colam o assunto de uma fonte qualquer e não dão a menor coerência ao texto.

            Um dia, meus alunos propuseram uma pesquisa de um assunto que eu estava passando na lousa. Recebi diversos textos sem pé nem cabeça. Um deles certamente era um pedaço de uma dissertação, pois era bem elaborado, inclusive com análises sociológicas de Hannah Arendt. Após ler o texto todo (sim, eu “perco o meu tempo”), escrevi um comentário relativamente grande ao meu aluno, dizendo, principalmente, que era necessário compreender o que estava escrito ali. Aproveitei a oportunidade para elaborar uma aula cujo título é: “Como fazer uma pesquisa?”

            Não estou querendo dizer com isso que sou a professora nota 10 rodeada de incompetentes. Estou dizendo, simplesmente, que entrei nesta batalha pra valer, e que isso significa debruçar-se em cima daquilo que o aluno apresenta e orientá-lo. Claro que, às vezes, desanimo quando tenho um grande volume de redações para corrigir. Mas passar os olhos e dar uma nota??? Fingir que ensina enquanto o outro finge que aprende, agravando profundamente o quadro desolador da educação?

            Provavelmente, em sua estratégia algo criminosa, o professor pense que com isso ganhará tempo. O mesmo tempo que vai gastar lutando para que sua consciência não o atormente.

Tudo aquilo que se ignora

 

            O que vou contar aconteceu na terça-feira passada. O que importa, na verdade, é que ACONTECEU.  Num primeiro momento, fiquei anestesiada, sem refletir profundamente sobre o ocorrido e seus desdobramentos. Reflito agora:

            Sou professora de Sociologia de 9 classes de Ensino Médio Regular 8 salas de Educação de Jovens e Adultos. De acordo com o cronograma estabelecido pela Secretaria Estadual da Educação, o tema a ser desenvolvido nas 3º séries do Ensino Médio Regular é a Cidadania. E lá estava eu, falando de direitos sociais, civis, políticos e humanos. Ao falar dos direitos humanos, mencionei a prisão de Guantánamo e os abusos cometidos pelos soldados norte-americanos contra os presos políticos. Eles me olhavam como se eu fosse um ET vindo de uma galáxia muito, muito distante, e estivesse fazendo uma descrição detalhada do meu planeta em outra língua.

            Pausa atônita: “Vocês sabem que os EUA invadiram e ocuparam o Afeganistão?”

            A resposta foi em uníssono:

            “Não!!!”

            “Vocês sabem que em 2001 os EUA sofreram um ataque terrorista?”

            “Não.”

            “Como assim? O ataque às Torres Gêmeas, quando dois aviões bateram em dois prédios imensos, e aproximadamente seis mil pessoas morreram.” (Fiz desenhos na lousa, um tanto desesperada, mas esperançosa, achando que com os desenhos eles se lembrariam.) E a resposta foi:

            “Não.”

            Respiro fundo. Algumas vezes. Não consigo transpor a minha perplexidade para dar prosseguimento à aula. Então respiro mais uma vez e conto toda a história, temendo, de antemão, que minha explicação logo caísse no esquecimento.

            Então me debato em dilemas pedagógicos, sociológicos e existenciais. Desde o início deste ano, quando iniciei as aulas de Sociologia, tenho feito um intenso exercício de adaptação das minhas expectativas à realidade. E a minha realidade não é muito animadora: oito aulas por bimestre, uma vez por semana, durante 50 minutos, que nunca são realmente 50 minutos, pois devemos descontar o tempo que se gasta em ocorrências que envolvem a rotina das escolas. Então surgem perguntas inevitáveis: “de que maneira pretendo, ou como é que imaginei que, num tempo tão curto, eu seria capaz de preencher as lacunas de tudo aquilo que eles ignoram? Como é que eu poderia sustentar a minha crença numa concepção de educação fundamentada no positivismo, achando que, por meio do conhecimento, do domínio de determinados saberes direcionados pela ciência e pela produção intelectual da sociedade ocidental, a emancipação humana seria possível?

            E então outras perguntas mais complexas reluzem: o que realmente interessa ao aluno? Quais conhecimentos eles precisam dominar, e para quê? Para entrar no mercado de trabalho, para a vida, para a conscientização social e política? Educamos para quê? Educamos quem e para quê?

            Certamente tudo isso dá pano pra manga, e são discussões que deveriam, por motivos óbvios, fazer parte da rotina de todos os educadores, individual ou coletivamente. Mas o que me deixa triste é constatar a quantidade de fatos, coisas, relações e produções artísticas que os alunos, de maneira geral, ignoram. Ignora-se quem manda no mundo e quem sofre com isso. Ignora-se a beleza de um bom romance. Ignora-se a transformação interna que um filme instigante pode causar. Ignora-se, ignora-se, ignora-se.

            Muitos ignoram a força que a possibilidade fomenta. Sergio Vaz, poeta e fundador de um movimento cultural chamado Sarau Cooperifa, costuma dizer uma frase muito importante: “É tudo nosso.” Diante do que relatei, talvez o único pecado seja ignorar a verdade que reside nesta frase.

Em resumo

Existem 14 milhões de analfabetos no Brasil!!!

Preciso dizer mais alguma coisa?

DESAVISADO

 

E a sua alma esqueceu de avisar que ele estava todo espremido.

Que o seu sangue estava ralo, e que no fim do dia ele não se sentia abençoado pelo Deus trabalho.

Que quando explodiam muitas perguntas em sua cabeça, seu coração não funcionava direito.

Que ter naturalizado o sofrimento não era, de jeito nenhum, uma maneira de sofrer menos.

Que desejar era tão perigoso quanto ter uma arma de fogo numa gaveta ao lado da cama.

Que admitir a existência do Diabo era dar corpo, voz e sangue ao exército invisível de suas renúncias.

Que no lugar onde a lacuna paria, nascia também uma possível beleza.

Que onde o possível dormia, a besta da aurora aliciava tudo e tudo tornava a ser vivo.

Que o passado era um amontoado de exclamações, e que por isso faziam do futuro um ponto final.

Que lutar é um reflexo.

Que vencer é sorte.

Que existir é mero acaso.

árvore frondosa.

Perder tudo por um segundo. E no segundo seguinte tudo será de novo, com toda a dor que funda embriaguez gaiola de vidro. Os dias são somente dias, somatória de dias, e quando descansamos percebemos o quanto tudo foi insano e que realmente, verdadeiramente, não poderia ter sido de outro modo.

Há algo, sim, dentro de você, capaz de desaguar, mesmo que a força seja mais pálida. Eu sempre tive uma vontade imensa e lunar de dizer tudo. Mas sempre tive medo do ponto final. O que mais me assusta hoje em dia é a expectativa, de qualquer coisa que seja.

Pelo menos o que é velho em mim tem um contorno e eu descanso nesse contorno e daí que ele não é acabado? Quem é acabado? Somos todos uma junção de pele, dentes, frases interrompidas, infância, somos todos uma junção de fragmentos que jamais irão se juntar.

Mesmo meu intelecto sofre mutações constantes eu não sei mais no que acredito e já sinto saudade de quando eu era humanista sem saber se realmente deixei de sê-lo. Pois todas as vezes em que a realidade me mostrou suas veias mutiladas e seus vermes eu sempre achei que havia algo em mim mais forte capaz de vencer as adversidades com minhas convicções, minhas armas sempre foram minhas convicções, e quando penso nisso a palavra balela escorre de dentro de alguma cratera que fui cultivando sem perceber.

            Quando me dizem que essa é a realidade, e que o mundo é assim, não deixo de pensar que um dia fui uma menina de quatorze anos que queria ser anarquista, e qual é a grama de poeira disso tudo que fica em nós? E tudo o que acontece de absolutamente revolucionário dentro do meu ser está encerrado num silêncio que é o silêncio que faz nascer um mundo novo e deus me livre ser alguma coisa nova revestida do velho.

Atendendo a pedidos!!!

 

            No dia 22 de fevereiro escrevi um texto apresentando o meu “quadro médico” e refletindo a respeito. Só para constar, adoeci novamente, mas esse não será o tema deste texto. Hoje me deparei com um comentário feito pelos meus grandes e amados amigos, Leila e Uashington, mais conhecido por WDC. Reproduzo aqui:

“Legal, mas quando você vai atualizar e falar sobre coisas boas? Tipo os seus amigos. Beijos.”

Leila e WDC

Isso me fez pensar: por que não falo sobre meus amigos? Sobre esses dois amigos, particularmente? Sobre a maneira como me sinto feliz perto deles? Sobre seus belíssimos gestos de amizade e carinho?

            Pois bem, falarei deles. E tentarei, na medida do possível, ser sintética, pois o que tenho pra dizer daria um livro. Não se trata, aqui, de “rasgação de seda”, e sim de um relato sincero e emocional sobre a nossa amizade. Pra quem não sabe, nos conhecemos na ONG onde eu trabalhei, o Projeto Arrastão. E, mesmo que eu tenha saído de lá em abril do ano passado, nossa amizade vingou, o tipo de amizade que não precisa de um espaço ou um convívio diário para florescer, e se estabelecer. Nos vemos com uma certa freqüência, que não é ideal, afinal de contas temos que cumprir rotinas e horários. Em todos os encontros, rimos, reclamamos da vida, fazemos projetos. Uns não se concretizaram, outros estão germinando. Mas o mais importante é que estamos atentos à vida um do outro.

            O que eu queria dizer, na verdade, sobre essas duas pessoas especiais, é que coloriram minha vida em momentos importantíssimos. Quando fui demitida, estava atirada no sofá, curtindo uma fossa, quando eles surpreendentemente apareceram e me presentearam com um quadro lindíssimo e uma cartinha que continha várias das frases que eu costumava dizer.

            Em outro momento, comentei com a Leila que gostaria de pintar. De brincadeira, pra ver o que acontece. E então ela me aparece com duas telas, tintas, pincéis, rolinhos. Esses são alguns exemplos das coisas surpreendentes e marcantes que eles fazem, só porque são assim mesmo, intensos, especiais, leais.

            E o mais incrível é que apenas a companhia deles me revigora. Desenvolvemos, ao longo do tempo, uma capacidade maravilhosa de rirmos de nossas desgraças, de debocharmos do mundo, de sermos, de certa maneira, marginais, subversivos, céticos, ranzinzas, bregas, alegres, e até mesmo melancólicos. Às vezes, nos sentamos num bar e vemos as horas passarem ao compartilharmos nossas afinidades e divergências e, muitas vezes, só de pirraça, ficamos disputando pelo nosso ponto de vista, tentando convencer o outro inutilmente, exatamente como os amigos fazem.

            O que me encanta neles é a maneira como encaram a vida. Basta um gesto cômico do WDC, que é palhaço profissional, pra que eu esqueça minhas preocupações e tristezas. E basta lembrar da Leila rodopiando pela sala de casa, ouvindo a trilha sonora do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain, pra que eu me sinta invadida por uma brisa fresca que reconstrói meus desertos interiores.  

Buscando a cura

 

Meu último texto foi sobre dor de ouvido, e já faz um tempinho. Dizem que, se a gente não atualiza sempre um blog, ele passa a não ser lido. Não sei se o Luas Cruas corre esse risco, aprendi a respeitar e preservar esse espaço, independente da “audiência”.

            Acontece que minha inspiração mergulhou numa espécie de deserto, e minha saúde não ajudou muito. Tive inflamação no ouvido em janeiro e, uns dias depois de ter “sarado”, adquiri uma inflamação bacteriana na garganta que me deixou com uma febre alta, me fez tomar praticamente um coquetel molotov de remédios e me rendeu insuportáveis quatro dias de diarréia.

            A tempestade passou, consegui retomar minhas atividades cotidianas e até consegui um emprego, como professora da rede estadual, mas esse é assunto para outro texto. Acontece que fiquei doente de novo, desde quinta passada. Começou com uma dorzinha no ouvido, e na sexta passei a sentir todos os sintomas de um resfriado, até que ontem senti dores de garganta e tive febre de novo. E tudo isso me faz perguntar a mim mesma ou a uma entidade qualquer: O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM MINHA SAÚDE? Tenho um leque relativamente vasto de explicações, e não sei se alguma delas me satisfaz, pois creio que, se eu compreender a razão pela qual meu sistema imunológico está tão vulnerável, poderei superar essa “fragilidade orgânica”.

            Vamos a elas:

1.       Muitas pessoas dizem que nossas doenças quase sempre têm uma origem ou causa psicossomática, ou seja, quando alguma coisa em nosso universo emocional não vai bem, acabamos adoecendo, pois é uma forma que a nossa psique encontra para sinalizar o que está errado. (Se algum psicólogo ou terapeuta ler esse texto, sinta-se à vontade para fazer as possíveis correções de ordem conceitual).

2.      A maneira como nos alimentamos influencia em nossa saúde. Quem me conhece, sabe que não sou muito fã de frutas, mas estou mudando esses hábitos alimentares para ver se me fortaleço.

3.      Vivemos num ambiente que emite uma quantidade muito grande de poluentes, o que danifica consideravelmente nossa qualidade de vida, deteriorando nossa saúde.

4.      O mundo de hoje, com suas injustiças, sua configuração social extremamente perversa, faz com que nossa alma adoeça.

Não sei se devo optar por uma das alternativas mencionadas acima, ou se minhas doenças consecutivas são uma junção de todos esses fatores. O que sei, concretamente, é que esse resfriado estragou em parte os meus planos para o carnaval, e, além disso, me fez mergulhar numa reflexão existencial importante. Claro que vai passar. Claro que, amanhã ou depois, estarei nova em folha, torcendo para que eu não adoeça tão cedo. Afinal de contas, temos que encontrar um jeito de lidarmos com as coisas.

Para finalizar esse texto, recorro a uma frase que ouvi num filme que assisti ontem. Com 38,5 de febre, meu juízo crítico estava afetado, portanto acabei assistindo um pedaço do filme Rock Balboa. Lá estava o velho Stallone, encarando mais uma luta aos 50 anos, e, numa das cenas, ao conversar com o filho, disse algo mais ou menos assim: “Não importa quantas vezes você apanha, o que importa é sua capacidade de se levantar.”

Perdoem a filosofia barata, mas a frase até que tem sentido. Adaptando-a à minha realidade imediata, afirmo que não importa o quanto eu fique doente, o que importa é que eu tenha força e serenidade para continuar caminhando, apesar e além de tudo.

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