Luas cruas


Um suicídio

Foi ontem. Saí do meu prédio, atrasada, e ali estava ele. Primeiro, visualizei um grupinho de policiais. Estavam contemplando um saco preto no chão, dentro do prédio, perto da portaria. O que vi foi uma poça de sangue em volta do saco, então pensei que ali, provavelmente, estaria um cadáver. Assassinato? Fui averiguar. Evasivo, o porteiro me informou que o Sr. Tal havia se suicidado. Estatelou-se no chão, assim se produzem os cadáveres. Assim se forma uma pequena multidão atônita. Assim o dia pára e o tempo começa a girar em outra órbita. Por instantes. Os mistérios que residem nos instantes atônitos. Levei a mão aos lábios e evoquei o famoso “Meu Deus”. Pensando na imensidão daquilo, peguei meu ônibus. Meu Deus. Nem cabia na minha boca a palavra POR QUE. Mas me lembrei de outras coisas, outras pessoas que se foram, a famosa questão filosófica que envolve o SUICÍDIO. Será que o Sr. Tal do apartamento X sentia-se como Sísifo? Ou simplesmente estava farto? E o que importa isso, afinal? Sempre temos a rotina que nos desvia das questões mais fundamentais. Uma vida se transforma numa massa disforme, e a fina garoa dissolve o sangue, o que há de mais gritante em tudo isso é o sangue.

            O que há de mais gritante em tudo isso é a falta de sentido, a única diferença entre nós e os suicidas é que eles simplesmente colocam um ponto final enquanto nós respiramos reticências vida afora.

            Talvez não seja nada disso. Uns pulsam, outros não. Uns se equivocam, outros não. Uns são fortes, outros são sensíveis. Uns colhem doçura de um deserto monumental, outros escrevem sem qualquer porque sobre o Sr. Tal do apartamento X que jogou-se de sua janela  e parou o movimento da rua e transformou-se num saco preto.



Escrito por Bianca Luna às 00h22
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Eles ainda dizem!

 

            Descobri o existencialismo talvez cedo demais. No auge da minha adolescência, uma época em que, naturalmente, tudo é levado a ferro e fogo. E foi o que fiz: levei a ferro e fogo as palavras de Sartre e, principalmente, de Camus, que é meu autor preferido. Questionar a existência foi, portanto, desde que me conheço como ser pensante, algo intrínseco à dinâmica da minha alma.

            Talvez os romances tenham me tocado mais do que as obras filosóficas, embora eu tenha, numa determinada época, buscado reter o cerne do pensamento existencialista, o que resultou numa pequena monografia que um dia irei retomar por puro prazer.

            Já que estamos falando de romances, também tive a alegria de ler Simone de Beauvoir, companheira de Sartre. Pra quem se interessar, recomendo “A convidada” e “Todos os homens são mortais”. Foi uma leitura antiga, pois minha vida seguiu seu rumo e acabei me interessando por outros autores. Mas eis que, num belo dia, fucei na minha estante à procura de algo para ler e ali estava outro romance dela, “Os mandarins”, que eu ainda não havia lido. Resultado: estou devorando! Primeiro, porque seu modo de escrever enlaça o leitor. Depois porque a relevância e a diversidade dos dramas vividos pelos personagens têm muito a dizer para nós mesmos. Resumo:

            A estória é ambientada em Paris, após a Segunda Guerra Mundial. As pessoas tinham que lidar com seus sofrimentos, sem saber se a Guerra realmente havia acabado, e se haveria outra. Além disso, os intelectuais travavam difíceis dilemas em relação ao rumo que a sociedade deveria tomar: tornar-se definitivamente capitalista, segundo o modelo norte-americano, ou aderir ao comunismo soviético? Assumir as graves atrocidades ocorridas na antiga URSS,  tais como os campos de trabalho forçados e o autoritarismo de Stálin, admitindo que a esperança de uma sociedade mais justa havia evaporado? Acreditar, ainda, no valor da literatura, sem cair na tentação de entender a ficção como algo fútil diante de um mundo que despencava, mergulhado num horror disparado por duas bombas atômicas? Como conciliar a felicidade pessoal com um suposto dever para com o bem comum, uma vez que, a princípio, são os homens que devem construir a sociedade?

            São essas as principais questões presentes nos diálogos e nos excelentes monólogo de uma das personagens. Ao longo da leitura, fui me dando conta de que o pensamento existencialista ainda tem muito a contribuir para nossas próprias questões existenciais. Alguns dizem que Sartre está ultrapassado. Duvido. Afirmar uma coisa dessas é o mesmo que, ao meu ver, julgar o pensamento marxista irrelevante, ou achar que Nietzsche não é mais necessário. Foram eles os grandes faróis que iluminaram um mundo mergulhado nas trevas. E eles ainda nos dizem muito.

 

 



Escrito por Bianca Luna às 22h16
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A vida não é uma Olimpíada!

 

            Com certa freqüência, fico matutando algumas questões durante um tempo longo, talvez porque, filosoficamente, tais questões não tenham se esgotado. É um privilégio poder partilhá-las com os leitores, que com certeza podem jogar alguma luz em cima de tais dilemas.

            Bom, o dilema de hoje é o seguinte: por que será que sentimos uma pressão externa esmagando nosso ser? Temos que ser bem sucedidos, temos que triunfar pessoalmente e profissionalmente, temos que dar conta de todos os aspectos da nossa vida, e a mulher, especificamente, além de ter que correr atrás de sua carreira, tem que dar conta da casa, dos filhos e estar sempre bela e perfumada para o seu marido, senão ele desanima e pula a cerca. Tudo bem, confesso que esse é um tema batido, mas não significa que esteja resolvido. E o que posso fazer, para ilustrar meus questionamentos, é falar da minha própria experiência.

            No dia 04 de outubro, estarei desempregada há seis meses. Nada bom para o bolso, nada bom para minha carreira profissional e muito menos para a minha realização pessoal. Não que eu esteja deprimida, largada no sofá já sem esperanças, olhando melancolicamente para os anúncios no jornal, aliás, tenho a oportunidade de fazer um mestrado, o que me dá plena satisfação, pois o mundo do conhecimento sempre me atraiu. O fato é que, de maneira bastante concreta, formei um amargo raciocínio em minha cabeça: se vivemos numa sociedade em que as relações sociais se dão, principalmente, pelo trabalho, pela dinâmica das forças produtivas, um ser desempregado não está dentro do processo produtivo, e, conseqüentemente, ele é um zero à esquerda (expressão bastante pejorativa, que ofende tanto os canhotos quanto os esquerdistas). Para provar a minha tese, é só fazermos um teste: quando somos apresentamos a alguém, geralmente perguntarmos o que fulano faz. Ou então, quando revemos ou ouvimos falar de uma pessoa, perguntamos: “O que você está fazendo?”. Traduzindo: “o que você está fazendo” significa: ONDE VOCÊ ESTÁ TRABALHANDO”?

            Alguns respondem: “Atualmente, estou desempregado, mas aproveitando para realizar alguns projetos pessoais”. Uma resposta, sem dúvida, elegante, mas, aos olhos dos que confiam plenamente na satisfação do ser apenas por meio do processo produtivo, meio sacana. Pois foi com uma curiosidade exasperada que acabei me sentindo fora do sistema produtivo, e, portanto, sem valor. O que é trágico. O que me fez refletir muito, e questionar a legitimidade desses valores que direcionam nosso modo de ser e de sentir.

            O fato é que a vida não é uma Olimpíada, em que geralmente vence o melhor, mesmo que esse seja o princípio básico do capitalismo/liberalismo. Por meio do seu trabalho, você adquire condições para ser independente financeiramente, para ter sua casa-carro-viagens-roupas-sapatos-cds-livros-cinema-horas-de-lazer e etecetera. Por meio do trabalho, você adquire uma identidade frente à sociedade, um reconhecimento frente ao Estado, e fica bem na sua roda de amigos. Mas, ao estar desempregado, as portas do paraíso estão hermeticamente fechadas, e o ser fica engolindo a poeira venenosa de sua própria incompetência. Sim, a incompetência é dele, uma vez que, por hábito ou por descuido ou por reflexo, o ser humano costuma tomar para si toda a responsabilidade, sem sequer pensar que a “culpa” não é só dele, mas também do mercado de trabalho saturado, do processo de especialização cada vez mais acirrado e, principalmente, de um sistema social que, ironicamente, se pretende neoliberal num país subdesenvolvido, que está muito longe de oferecer as mesmas condições básicas de sobrevivência para todas as pessoas.

            Por tudo isso, resolvi distender meus nervos, acreditando que, se a questão for entendida por outro prisma, minha angústia irá diminuir. Repartir as culpas. Valorizar outros aspectos da existência humana que estão fora do processo produtivo. Acreditar em outros caminhos para a realização pessoal e profissional. Inundar a vida de arte, de um propósito que não seja ditado categoricamente pelo mundo externo. Infelizmente, não possuo fórmulas. Mas sei, talvez de maneira puramente intuitiva, que é preciso VIVER enquanto se vive.



Escrito por Bianca Luna às 10h18
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Breve reflexão sobre Educação Ambiental.  

 

            Pra quem não sabe, fui Educadora Ambiental durante um ano. Uma experiência inesquecível, que me fez ponderar de infinitas maneiras sobre o que significa conscientizar as pessoas sobre a preservação do meio ambiente. Durante esse tempo, me dispus de muitos recursos de sensibilização e, principalmente, debates com os alunos sobre a sociedade de consumo, a princípio a principal vilã responsável pela degradação da famosa natureza.

            Eu lia praticamente tudo o que aparecia nos meios de comunicação sobre meio ambiente, e, evidentemente, tinha que fazer uma “triagem”, pois cada reportagem ou veículo trazia em si certa ideologia que direcionava o tema de determinada maneira. O que pude constatar, ao realizar essas triagens, é que tem muita coisa boa e muita coisa superficial sobre o assunto. Além disso, a dinâmica intrínseca à divulgação dessas informações segue uma lógica frenética: um dia, o mundo vai acabar amanhã, e se você não se tornar um defensor mordaz do meio ambiente, a culpa será totalmente sua. No outro dia, não é bem assim, é só cada um fazer um pouquinho e ainda resta esperança para a raça humana. A tendência, portanto, é de que os professores envolvidos com o meio ambiente realizem uma “alfabetização ambiental preventiva”, ensinando às crianças, jovens e adultos a cor de cada material para reciclagem, e martelando na cabeça deles a frase de ordem do momento: “Reciclar é preciso!”

            É preciso afirmar que “o buraco é bem mais embaixo”. E, quando me dei conta disso, tentei tratar do meio ambiente de um modo interdisciplinar, trazendo para o debate muitos outros aspectos que envolvem a questão ambiental. O que não foi nada fácil, pois, a partir do momento em que um educador se propõe a tratar de um tema de maneira mais profunda, surgem muitos desafios e obstáculos. Afinal, estamos carecas de saber que a mudança de uma mentalidade introjetada desde sempre no ser humano é uma das coisas mais difíceis de se realizar. Num mundo que promete identidade, pertencimento a um grupo e satisfação pessoal por meio da aquisição de bens materiais, é quase impossível demonstrar que o consumo exacerbado é responsável pela pilhagem de recursos naturais e pela produção insana de resíduos sólidos, com todas as suas conseqüências ambientais.

            Como em qualquer processo pedagógico, não tenho como avaliar em sua totalidade o resultado que obtive durante um ano de Oficinas. Mas tive a feliz oportunidade de conhecer alguns: um grupo de alunas me disse que deixou de jogar lixo no chão após as minhas aulas, e um dos meus alunos, o Edson , criou um blog sobre meio ambiente que chama-se O ar que respiro, que vale a pena conhecer (http://edymaloweblood.blogspot.com/).

            Por tudo isso, me dou por satisfeita, e me arrisco a dizer que muitos alunos vão pensar duas vezes antes de comprarem algo fútil, de tanto que tentei explorar com eles os mecanismos perversos da sociedade de consumo e sua relação com o meio ambiente.

            Não existe Educação Ambiental eficaz sem que uma educação pela cidadania esteja atrelada a ela. Não há como divulgarmos cartilhas de novos hábitos e atitudes frente ao meio ambiente sem que, antes disso, seja desenvolvido um senso crítico em relação ao mundo em que vivemos. Durante o ano de 2007, após a divulgação dos relatórios do IPPC sobre as mudanças climáticas, houve uma verdadeira “onda verde” que invadiu nossas vidas de maneira assertiva.  Creio que grande parcela da sociedade, impulsionada pelas notícias que nos bombardearam, experimentou um desejo de mobilização e de ação em prol do meio ambiente. O que é válido, mas não é o bastante. É óbvio que devemos rever a maneira como nos relacionamos com a natureza, antes que ela seja apenas uma lembrança remota. Mas também temos que rever a maneira como nos relacionamos com o outro, com a cidade, com a política, com nossas vidas, com nosso corpo, com nossa educação, com as informações que recebemos, com as armadilhas do senso comum, e, principalmente, com o mundo que queremos ter, com a sociedade que queremos ser.

            Para tanto, é louvável que separemos materiais para reciclagem, que lutemos pela coleta seletiva em nosso bairro, que deixemos de comprar coisas inúteis, que reaproveitemos nossos alimentos, mas é muito mais louvável e urgente que questionemos os pressupostos básicos em que nossa vida em sociedade está erguida.

           

               

 



Escrito por Bianca Luna às 16h08
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Segunda-feira

 

Hoje eu quero tudo, menos a dor.

Quero esse vento forte varrendo minha alma.

Quero poesias cobertores, quero lágrimas verdadeiras, quero que o cinismo tire férias.



Escrito por Bianca Luna às 23h08
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LUA CRUA

 

Tenha cuidado com os sons que vêem lá das profundezas. Com o cheiro incolor da melancolia. Porque às vezes, quando tudo está arrumado, tem um VAZIO querendo ser polido e não há nada entre o céu e a terra capaz de preenchê-lo, porque adquiriu garras enquanto crescia. Assim, sem sequer.

         Ainda bem?, que os dias se repetem, ainda bem que algo cíclico nos mantém vivos, ainda bem que o domingo acaba, ainda bem que podemos tomar Dorflex para dor de cabeça e para as outras dores dizem que o tempo...

         Tem certos mistérios que ainda estão sendo garimpados em livros, em músicas. Um oceano musical treinando o ouvido para o imponderável. Hoje povoei um planeta. Uma lua crua.



Escrito por Bianca Luna às 18h45
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Um pedaço de alívio

 

            Respirar de alívio. Encontrar-se a si mesma de forma que a outra nasça, a outra tantos anos esboçada, e que carregará o melhor da antiga. Vira e mexe, me deparo com alguns enormes pedregulhos no meio do caminho. Então me descabelo, mas, por segundos, e com muita sorte por alguns minutos, e por milagre, por algumas horas, consigo celebrar, apesar desses pedregulhos.

            Tenho me sentido carregada demais, e não sei exatamente qual é a bagagem extra que tenho arrastado. O passado inteiro? Aquela parte do passado que ficou coagulada como uma barragem? Várias partes coaguladas formando uma força sinistra, hermética, misteriosa, se fosse claro, se eu soubesse jogar luz em tudo isso, bom, e se eu conseguisse jogar luz em tudo isso? Não tem coisa que simplesmente escapa da nossa percepção, força de vontade, autocontrole?

            Às vezes me sinto tão ávida, e isso por causa das minhas descobertas intelectuais, me sinto tão ávida que tenho vontade de estender meus braços até mergulhar o outro nesse mar de euforia.  Pra que ele voe também. Pra que ele aprenda, pra que ele perceba, mas onde está o outro? Oscilando. Às vezes, acessível. Outras vezes, sem a menor paciência. Outras vezes, ausente. Ou então, com o nariz enfiado em sua própria vida, o que não é totalmente injusto. O que é natural. Acho que é por isso que decidi ser escritora. Pra que sempre pudesse, de alguma forma, apreender o outro.



Escrito por Bianca Luna às 21h43
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A carne e o osso da solidão           

 

Só tem medo da solidão quem não se conhece. Mas quem conhece suas imperfeições também pode temer o silêncio do mundo exterior, e ficar sozinho é um fardo. Você e seus borrões, você e o não dito, você e as expectativas que são reinos ainda não conquistados passeando pelos seus olhos.         

            Você e seu universo hermético. É que às vezes a gente quer que a solução venha de fora. Que o famoso OUTRO encaixe as coisas, e as faça moverem-se numa dança. Os sonhos são devaneios que se sonha só, porque assim eles podem ser livremente contornados. Eles podem criar carne e osso. Porque ninguém saberá quando caímos. Nem que voamos.

            O vazio não chega a doer. Vazio é vazio, inclusive de dor. Vazio é o que fica quando a plenitude se despede. Uma das mais difíceis leis do universo é que não se pode ter tudo ao mesmo tempo. Não se pode ter a si mesmo se estamos com os olhos e o coração fincados em alguém. Não se pode ter a si mesmo quando estamos concentrados em doar para receber. Ou receber sem doar. Ou apenas doar, achando que um dia receberemos com juros.

            Ah, mas temos recursos. Não é o que a arte (qualquer uma) faz? Preencher possíveis desertos? Fazer o vazio transbordar? Não é o que os amigos fazem? Zunidos num ouvido sedento, corpo quente no meio da lua da nossa tristeza? Não é o que o amor faz? A música não é o vinho de uma taça vazia?

            Solidão é apenas o que ocorre quando não percebemos que outro ser dentro de nós já nasceu.



Escrito por Bianca Luna às 01h08
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Sem pretensões!

 

            Terminei mais um romance. Como os dois outros já escritos (e não publicados), este nasceu dentro de mim sem mais nem menos e ficou germinando durante um tempão na minha cabeça, até que, desde abril, fui acometida por uma vigorosa inspiração e trabalhei nele quase todo dia.

            Chama-se Leite de pedra e, resumidamente, narra a história de vida de alguns personagens moradores de um bairro de São Paulo. A vida ordinária, mas não num sentido pejorativo, e sim num sentido rotineiro.

            De certa forma, pode ser considerado uma reunião de pequena crônicas, e nisso arrisquei um novo estilo (mais cômico e despretensioso).

            Pois é na palavra PRETENSÃO que eu gostaria de me ater. A princípio, todo artista tem alguma pretensão ao realizar uma obra. Que seja uma denúncia de cunho social, que seja compartilhar as cores e o movimento de sua alma, ou mostrar o outro lado da vida.

            Minha pretensão (ou intenção) sempre foi desmascarar fatos e situações e comportamentos tidos como verdades e valores invioláveis. Eu sempre quis “sacudir a estrutura”, o que oferece às minhas palavras um tom de permanente militância.

            Pois a partir de outras vivências, passei a querer desbravar novos horizontes, em que o elemento principal não fosse a militância, nem a densidade, e sim a comédia, a leveza, a falta de um sentido profundo que deveria ser cavado e absorvido pelo leitor.

            Por tudo isso, não acho que tenho a obrigação de “ensinar” ou impor ao leitor o sentido das minhas palavras. Acredito que, dessa forma, cria-se uma relação mais espontânea e verdadeira com os meus leitores, que eles achem o que quiserem, que aplaudam, que vaiem, que gostem, que não gostem, que riam, que não achem graça, dou-me por satisfeita se minhas palavras forem acariciadas por olhos interessados, e que dentro desses olhos fique alguma coisa – qualquer coisa.

            Fui percebendo que, entre o que o autor quis dizer e o que o leitor absorveu, existe uma distância imensurável que pode construir tantas vertentes, pontes, atalhos, vazios e vulcões que é desnecessário doutrinar uma obra. A não-pretensão, portanto, tem a potência necessária para fazer do que foi escrito a promessa de uma obra que se faz em cima da obra.

            Em poucas palavras, a não-pretensão é um alívio!



Escrito por Bianca Luna às 00h22
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O Luas Cruas costuma emprestar seu espaço para a publicação de outros autores, pois a arte precisa ser compartilhada em todas as suas instâncias. Por isso, segue uma poesia de uma ex-aluna minha, Amanda, que tive o privilégio de conhecer e de descobrir seus tesouros.

Perfeição?!?!?!



Procuro um lugar do mundo

Onde não exista desigualdade

Onde não haja fome e violência

E todos tenham liberdade



Procuro um lugar no mundo

Onde todos se respeitem

Independente da sua forma física

Posição social ou nacionalidade



Procuro um lugar no mundo

Onde todos se importem com os estudos

E que o ambiente político

Seja claro e não obscuro



Procuro um lugar no mundo

Onde o amor, o carinho e a amizade.

Sejam levados em consideração

E onde os idosos recebam

Mais cuidado e atenção



Este lugar só existirá

Quando todos tomarem consciência

De que o mundo é nosso lar

E que dele temos que cuidar.



Escrito por Bianca Luna às 17h09
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Da estética

 

Breves ressalvas

Enlatadas

Vaporizadas

 

Mágicos e invisíveis andaimes

Erguendo o templo-substrato

Mesmice

Individualidades que convivem

Na gasta fórmula cinza

Ethos coletivo do vazio

 



Escrito por Bianca Luna às 00h44
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Comumente é assim:

 

Cada um ao nascer

Traz sua dose de amor,

Mas os empregos,

O dinheiro,

Tudo isso,

Nos resseca o solo do coração

Sobre o coração levamos o corpo,

Sobre o corpo a camisa

Mas isto é pouco

Alguém

Imbecilmente,

Inventou os punhos

E sobre os peitos

Fez correr o amido de engomar

Quando velhos se arrependem,

A mulher se pinta,

O homem faz ginástica

Pelo sistema Miller

Mas é tarde

O amor floresce,

Floresce,

E depois desfolha

 

Vladimir Maiakóvski



Escrito por Bianca Luna às 17h37
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Conjugar.

 

Colocar levemente a cabeça fora da toca. O mundo é o mesmo, mas o olhar se renova. Como uma montanha russa, são meus sentimentos. Como eles se movimentam. De repente, o caos silencia. De repente, evapora. Por causa de uma bela música (Going to Califórnia, do Led Zeppelin). Talvez os nossos gostos nos salvem um pouco. Pessoas que têm pavor da solidão não se conhecem, é o que eu acho. A princípio, todos os seres humanos deveriam se bastar. Por outro lado, por um paradoxo cruel, a gente só se faz e existe por meio do outro. Quando o outro nos olha, quando o outro nos ouve, quando nos deseja. Compartilhar. Conjugar. Vou ler? Vou dormir? Vou ver TV? Vou tentar reter o tempo? Vou me satisfazer com o que é. É o que está escrito na minha tatuagem no pulso esquerdo, Amor Fati. Amar o que é. Amar o que é não é aceitar. É o primeiro passo para transpor. Para assumir, entender e deglutir o que nos incomoda, porque só assim é possível romper, renovar.

            Se não é o desespero, é a filosofia. Talvez um dia haja outra coisa dentro de mim para conjugar.



Escrito por Bianca Luna às 23h21
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Abissal

Faço desse espaço algo precioso. Fico imaginando as feições das pessoas que já passaram os olhos pelas minhas palavras, muitas colhidas nas curvas do desespero. Desespero por simplesmente existir, será que um dia alguém saberá o quanto em mim existir é intenso? Será que um dia alguém pegará minha alma no colo, assim sem querer?

            Pois ando cismada com essa coisa de ser DENSA. Das palavras carregarem o peso de pedras ancestrais. Queria ser leve por dentro, como uma borboleta, de longe meu animal preferido. Aliás, borboleta – palavra delicada / animal – palavra bruta: não combinam. Queria ser ALEGRE. Queria escrever um texto que fizessem com que meus leitores pudessem dar cambalhotas em cima de rimas pobres e engraçadas, de pedaços lustrados de coisas banais. Queria, queria, queria, e o que me resta é atirar no escuro, em busca de um porto seguro onde essa matéria DENSA (de novo a famosa palavra) possa desaguar, e diluir, e dissolver, e chover.

            Ontem eu estava num bar com dois amigos muito queridos, e ambos estavam desanimados. Respeito profundamente (outra palavra famosa em meu universo), os estados de espírito desanimados, no entanto, quis levantar o “astral”. Contei uma piada infame e ridícula que os fez rir por dó. Mas por que estou contado isso? Porque afinal de contas não depende de nós. Se o mundo se move dessa maneira estranha e cada um tem que se virar para administrar o seu interior, quem somos nós, os outros, para infligir injeções de ânimo? Inevitavelmente, penso na doçura de um palhaço. Um dia, eu estava com uma amiga (aliás, a mesma amiga de ontem) no vão livre do Masp quando um palhaço apareceu e nos ofereceu duas rosas pequenas, feitas de pano, em troca de algumas moedas para uma causa qualquer. Sem dizer uma palavra. Seus gestos foram tão belos e suaves que não resistimos. Sorrimos. Aceitamos as rosas. Demos umas moedas.

            Em seguida, sem querer, eu o vi sentado um pouco longe de nós, com uma mulher que parecia sua esposa e uma criança que poderia ser seu filho. Então, minha decepção infantil: ele era gente de verdade? Ele pagava aluguel, tinha brigas conjugais, e existia assim, como nós, seres normais, existimos? Ele não era uma entidade?

            Mas por que estou contando isso?

            Ah, porque me refiro a essa leveza. A esse estado de espírito, mesmo que seja breve. Tenho medo de ser cansativa. Tenho medo de ser eu, desde muito pequena, desde muito muito muito pequena tento vencer minhas abissais entranhas. Abissal. Palavra bonita demais para o significado DENSO que carrega. 



Escrito por Bianca Luna às 00h17
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Tudo sem horizonte

 

            Tudo sem a espera que enfim torna possível. Tudo aconteceu, tudo fluiu, mas o nada permanece e se impõe, como a insinuação de uma sombra que esboça o nosso sol ausente. O meu sol ausente. O meu soluço. A minha fome. Nem foi o meu grito que acordou a promessa. Não, não foi o meu grito. O que fica jamais saberá a que preço se permitiu existir. O que fica já não serve. Não foi o silêncio que fez o mundo. Fui eu. Pra que um dia eu acordasse e descobrisse que as flores não nascem em solo de cimento. Sentimento avulso. Frouxamente negado. Pássaro com uma asa quebrada. Sem ninho. Eu, sem ninho. Eu, sem desculpa nem esperança nem memória. Nem aquilo que me sustentava, ou seja, a aridez diante dos meus olhos sem horizonte. Se tudo já passou.

            Se a promessa de vida já passou! Eu ainda quero?

            Quero a palidez muda de olhos atentos. Olhos imensos que sempre esconderam a verdade do mundo. Quero o meu reflexo em um lago que desnuda o seu fundo. O meu fundo.

            Quero apenas reinventar e reviver o meu horizonte.

 

 

 

 

07/04/1997



Escrito por Bianca Luna às 16h39
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Vênus

 

Beleza petrificada de Vênus

Velho oeste do deserto negado

Flor rubi de um coração assustado

Largo e infinito perímetro

Concha mãe da humanidade órfã

A ferrenha recusa retorcida

Mananciais ressecados

Extremos coniventes

Tesouros falidos

Cadáveres irônicos

Lutas cósmicas

Tímida secura

Lento dilúvio

Fogo celestial

Preponderante mágoa

Alívio sangrento

Dor desumana

Limite incomensurável

Nudez exacerbada

Mentira desolada

Em vão, em vão

O mundo vão te espia

 

 



Escrito por Bianca Luna às 16h06
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A pele do Zênite

 

Seja forte.

O bastante para que, quando a tempestade passar,

não reste nada além da força.

Sequer um resquício de ternura.

E você sabe que, muito cedo, ofertou sua alma ao deserto, sem escrúpulos.

E o deserto é tudo o que você tem.

Talvez a embriaguez te lembre, de forma patética, como era ser humana.

Todos os seus contornos são BORRÕES.

E então padeço com classe.

Seja tão idiota quanto todos eles.

Porque pra você o mundo sempre teve o gosto do vinho.

Turvo.

O mundo sempre foi turvo.

Chora tolamente mesmo sabendo que suas lágrimas não nutrem seu deserto adestrado.

Tudo o que é adestrado persiste como uma chaga maligna.

Esmaga minhas migalhas que serão ofertadas ao vento. Hálito de morte.

Você passou a vida inteira garimpando algum glamour no que é ridículo.

Seja parte.

Nem isso irá te restituir.

Para manter-se imune, é só cometer mais um pecado.

Você sangra por capricho.

Cumpre o teu destino empurrado goela abaixo quando você nem sabia que tinha o direito de existir.

Por que precisamos de um ventilador quebrado?, se o que há dentro é um cemitério de expectativas dilaceradas.

Sua avidez assassina. Assassinada enquanto nascia.

Eu não gosto de amarelo.

Quando o sol reluz em minha cara, sinto-me insultada.

Minha alma sombria sente-se insultada.

Tem uma partícula, uma mísera partícula, que pode ser divertida.

se eu limpasse tudo, seria um vazio polido.

Seria uma assepsia da alma, mas a mancha continuaria tiranizando.

A mancha nunca vai me deixar em paz.

Render-se à verdade é isso.

Liberdade é isso.

É não ter nada.

O que significa altruísmo, afinal de contas?

Um palavrão? Um palavrão aliciado por condicionamento.

A humanidade provou que o altruísmo é impraticável.

Mas insistimos.

Insistimos e morremos em vida e nossa alma se encolhe.

E carregamos mais alguns fantasmas dentro de um coração que começa a se degenerar.

Aí alguém mais velho te olha e sentencia: você ainda é jovem.

Sem saber que a juventude foi jogada numa latrina de ouro.

 Jhweihfiehrwqnkajdjdjsdjejdsjajsjdedejsjajdjedssadednsanmberwoefbsdabewbnrtejdfbndsidosdiosad.

(O ruído amedrontado da renúncia.)

Porque a alma não foi untada com afeto.

Enferrujada.

Logo depois, a pele cria rugas.

E daí, quem se importa? quem se importa quem se importa com o que ocorre no fundo fundo fundo fundo do ser??????????????????????????????????????????????????????

Você é feita de cinzas.            

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

           

Nem sempre trocamos de pele quando a pele dos sentimentos cicatrizados deixou de luzir.



Escrito por Bianca Luna às 13h30
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Comentários deslumbrados sobre a Peça “Sapato Apertado”:

 

            Quereres. Sapato apertado. Jovens. Palavras que fundam caminhos imprevisíveis. Palavras cantadas, sussurradas, sentenças sugestivas. Palavras fluindo pelos poros de uma dança hermética. Nada é simples. Nada é declarado. Somente o desejo suspenso entre gestos, sedes, impulsos.

            Jovens que têm uma feição adulta. Hesitam, entre enterrarem o sapato apertado na dureza de uma vida que exige luta e sensatez e explorarem um novo caminho, que, para olhos destreinados, é inacessível. Sugestão. Uma luta existencial. Luta que se assemelha a uma guerra, sem vencedores. Pois, quem vence é o querer intacto.

            Almas inundadas de poesia. Tanta poesia que tem a força de recriar um mundo que ainda não é completamente conhecido. Onde está, afinal, a nossa juventude? A força do nosso espírito? Onde foram parar nossos sonhos, que foram aliciados com tanto cuidado, imunes ao desespero? Quem queríamos ser quando éramos jovens? E o que temos a oferecer para os nossos jovens? O que querem, verdadeiramente? Eles simplesmente querem.

            Repentinamente, a loucura faz uma visita. A loucura mascarada de diversas faces, pronta para engolir a razão. Quem tem razão? Quais sãos os conselhos mais sensatos e menos mentirosos? O teu sapato não aperta também, bem onde sua alma começa a desaguar?

            É o que espetáculo oferece. O mais encantador é o que reside nas entrelinhas. As entrelinhas enfeitiçam, desde sempre. Ofertam, livremente, como livre é a arte, as teias pelas quais cada um construirá sua história daqui pra frente, tendo o passado emoldurado num quadro branco. Um retrato. Pedaços de essências de melodias que lembram um começo. Um começo no começo da travessia. Um começo sem rosto, um começo, a princípio, selvagem.

            Um começo que nasce a qualquer momento, sem pedir passagem, sem ser anunciado por qualquer gesto prudente. Um começo que pode vingar no meio de uma refeição, ou num domingo tedioso. Um começo que enterra os escombros ocos do que subsiste por teimosia. Um começo que me fez querer também. Não importa o quê. O que importa é que fui inundada de sementes.

            Vá assistir com a alma aberta.

           

Peça: Sapato Apertado

Direção: Nelson Vilaronga

Em cartaz no Teatro Vivo

Av. Chucri Zaidan, 860 - ao lado do Shopping Morumbi

De 25/06 a 31/07, todas as quartas e quintas, às 20:00

De graça, é só me avisar que dia prefere ir, e colocamos no nome na lista.



Escrito por Bianca Luna às 14h57
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Uma poesia para a Leila:

Leila Rosa, ou...

Fogo suave

Botão mergulhado em orvalho

Pele feita de poesia

Lago azul

Coração vasto e voraz

Taça transbordante de cores

Lua...

A íris de um furacão.

 



Escrito por Bianca Luna às 21h24
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Noite fria

 

Eu não vou inaugurar o fim porque prefiro o princípio mesmo sabendo dos riscos. O que são riscos para uma alma secretamente imersa em fogo, com uma grande e pecaminosa queda para o masoquismo? Silêncio! Que aqueles que me conhecem só por fora não me ouçam. Está uma noite fria e o silêncio que ecoa dentro de mim tem o som e a consistência de uma tempestade medonha que vai destruir tudo o que em mim habita por apenas um segundo só porque as coisas são assim mesmo.

            E então amanhã acordarei com o mesmo rosto, sabendo que  o meu corpo vai demorar pra entender que a alma já trocou de pele. Adoramos nossos gestos condicionados porque desde o momento em que o homem descobriu o conforto, virou um mimado. Adoramos aquilo que não muda porque o que muda dá trabalho. Contemplamos com um nojo educado nossas fraturas expostas, somos apenas criaturas, criaturas, criaturas, umas mais felizes, outras mais fúteis, mas somos apenas criaturas.

            Às vezes tenho tanto ódio desses seres que andam pra lá e pra cá, esses seres que andam, que acordam e escolhem a roupa que vão usar, que sonham, que traem, que comem, que trepam, que se reproduzem, que choram, que atrapalham o trânsito, que não respeitam o tempo do semáforo, que estão com pressa, que reagem ao que impuseram docemente, e quando se tornam cruéis, são escurraçados, esses seres deliberadamente escurraçados, tenho pavor de me sentir mais um deles, um entre eles, um no meio deles, um igual a eles.

            Meus sonhos são como uma pedra enorme que foi jogada no fundo da minha imensidão, e eu era jovem demais para cometer essa ousadia, é que, por capricho, eu queria simplesmente ser livre, porque achava que a vida não tinha me dado nada, porque achava que era melhor não ter nada se não fosse possível ter tudo, porque COMEDIDO, porque MEIO TERMO, porque DISCRIÇÃO, porque EQUILÍBRIO são palavras feias demais para o meu vocabulário caótico e patético, são palavras que enferrujaram e perderam a serventia por falta de uso, ou se quebraram quando um objeto quebra quando não é manuseado corretamente.

            A tristeza nasce justamente quando as coisas dentro de mim quebram, num silê